segunda-feira, 30 de junho de 2008

UM POUCO DA CULTURA DA ILHA DO MEL


Quando o olheiro, posicionado no alto do morro do Farol ou do morro do Miguel ou torre de madeira, grita: "ói a tainha!", todos os pescadores, que passam as horas à espera, na beira da praia - consertando redes, conversando, jogando dominó - correm com seus barcos e redes para dentro d´água. A tradicional jornada acontece todos os invernos e dura algumas semanas.




O vento sul soprou a noite inteira na Ilha do Mel. O dia amanheceu gelado, com o mar agitado, mas não o suficiente para atrapalhar o avanço das pequenas canoas contra a arrebentação. Entre maio e julho, este é o cenário que todo pescador anseia. As condições climáticas se mostram perfeitas para ir de encontro aos grandes cardumes de tainha, peixe que há pelo menos um século sustenta a pesca artesanal do litoral sul e movimenta a economia. Em busca de águas mais quentes, as tainhas migram do extremo sul do continente para a costa do Paraná e de Santa Catarina. Trata-se de um processo migratório sazonal que é avistado com maior facilidade nas praias de Encantadas,Miguel e farol,as Tainhas ficam mais acessíveis aos pescadores.


O processo de migração coincide ainda com o período de gestação dos peixes. Muitas das fêmeas pescadas costumam estar “ovadas”, como dizem os pescadores. A ova da tainha é uma iguaria bastante apreciada e sempre vem em pouca quantidade, já que o peixe não passa de um quilo. A pesca da tainha na Ilha do Mel obedece a um ritual. De manhãzinha, os pescadores se agrupam no canto do Farol ou Miguel para um café o chamado “café cabeludo” , no qual a água quente se mistura ao pó de café sem filtração. Isso porque, antes de embarcar, faz-se necessário um longo processo de observação dos cardumes. As ondas não devem passar de um metro, senão fica difícil transpor a arrebentação. Já no mar, as canoas fazem o cerco aos peixes e os arrastam até a beira da praia – procedimento conhecido por pesca de arrasto, ou “arrastão”. A chegada, na maioria das vezes, acaba sendo saudada com festa por quem acompanha, de longe, a atividade. Num único lance, as redes de pesca podem capturar cinco toneladas de peixes. “Até pouco tempo atrás, essa era uma atividade tipicamente comunitária, e tudo era dividido em quantidades iguais entre as pessoas que participavam do arrastão – sempre ficando um pouquinho a mais, claro, para o dono da rede e do barco”, assinala Paulo Juvencio Ribeiro, que chama atenção para a mudança nos hábitos de distribuição. Atualmente, com o crescimento das comunidades pesqueiras e de esquemas empresariais de distribuição, muitos dos que puxam a rede não levam nada. “Vai tudo para a cidade de Paranaguá onde é vendido para a peixaria”.

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